Nã vejo sombras
Percursos alternativos
Incautas glórias
Nem saudades
Porque nada já não me anima
E tudo me apoquenta
Neste contemporâneo envenenado
Que acaba me sufocando
Pela cicuta de uma liberdade
Cada vez mais exígua
Mas sempre pronta a injuriar
A quem não sirva a mentira
A quem não se cale
Com o vilipendiar da reputação de outrem…
Acabo avistando
Lá longe
Na planície
A candura de uma voz paterna
Que tanta falta me faz
Mas não vejo os amigos
Nenhum dos que conheci e amei nesta vida
E é essa ausência física que me vai matando lentamente.
Celebrei com mediano entusiasmo
O fim de uma vida de trabalho
Que acabou me encrustando nas pedras
Como uma colónia de percebes
Que defendem as investidas do mar
A viver ritmos de vida
Tão iguaizinhos
Que um dia de uma vida assim
Pareciam uma vida inteira
Vivida nas planícies do Sul.
Agora nado sob as investidas dos meus braços
Numa piscina ruidosa pejada de crianças
Procurando refletir sob a minha existência
Passada e presente
E sem perspetivas de futuro
Nos silêncios submersos das águas
Que me acompanham;
Já não necessito de me levantar da cama
Às pressas
Nem acelerar para acender o meu primeiro cigarro
Para me dar o vigor para a labuta diária que sempre me apoquentou
Visto-me sempre com a mesma roupa informal
Aquela mais simples que persegue
Todos os que
Como eu
Têm o dia inteiro para se vestir
E quando o sol não surge no firmamento
Fecho-me na minha concha
A incinerar
Cigarro após cigarro
Que sempre me acompanham e me acompanharão
Enquanto a alma não se despojar do meu corpo;
E quando a lucidez me abandonar
Me sepultem numa campa rasa e simples
Na companhia de um maço de cigarros
E um pequeno chaparro ao lado
Que me darão a sombra que necessito
Nos dias mais quentes do ano,
E quando me visitarem
Tragam-me a água do mar
Que me acompanhou nos dias mais felizes da minha vida!