O gato preto
Que nunca faz nada por menos
Desliza
Na sua pachorrenta mansidão
Pelo soalho da casa
A escutar os murmúrios
As horas mortas
Os queixumes
Os silêncios benignos
Interrompidos
Pelo ligar/desligar
Dos aparelhos de refrigeração;
De repente
Corre esbaforido pela casa fora
Sem sentido
Sem norte
Com o rabo
Entrecortado
Por
Certo dia
Um casual acidente
Assim o determinou
Mas
Garboso
Gosta de o trazer ereto
Apenas para eliminar o tédio
Em que
Não raras vezes se vê envolto
E eis senão quando
Para o espantar
Se lança com as patas em frente
Como um ágil guerreiro de artes marciais
Em direção a um pau entrelaçado de cordéis
Expondo umas unhas flexíveis
Que rasgam a madeira
Para aliviar a frustração;
Místico à nascença
Mas encerrado numa quase masmorra
Que o incapacita de mostrar todo o seu esplendor mais oculto;
Porém, aqueles olhos circunflexos
De um verde-safira
Trazem-me à lembrança
A sua estreita ligação ao planeta Mercúrio
Que nos eleva a inteligência e a comunicação
Mas sempre com o coração a bater certinho
Para dar as boas-vindas aos nossos desejos
E resistir aos que os outros formulam;
Por isso
Não me canso de admirar
Este gato preto que parece rebolar
Com o seu pelo cintilante
E o seu passo a menear
Rogando sempre por uma carícia
A olhar-nos com astúcia
Para exultar o nosso lado mais espiritual!