Artimanhas do Diabo

A chuva veio de mansinho

A chuva veio de mansinho
Não se anunciou
Não se mostrou
Não se fez ouvir
Simplesmente
Veio
Para montar seu acampado
E o pior é que ninguém a quis ouvir
E quando viram o chão húmido
Disseram-se exuberâncias
Propagaram o fim da ordem estabelecida
Dos valores tradicionais salazarentos:
Do deus, pátria e família...
Até um senhor falante
Que todos os dias anunciava o mal da chuva
Que ajudou na redação sobre as leis que a regem
nos últimos tempos
Num ápice 
Fez-se desaparecer ou fingir de morto,
o argumento dos surpresos 
Pela calamidade que era a chuva
Passou a ser tão ridícula:
Criticar a roupagem dos pingos
Incentivar a polícia a acabar com a chuva
Até se chegou a dizer:
Tão moderna esta chuva
Que só se alimenta de plásticos
Que tanto criticava nos outros!
De repente
Os que criticavam os malefícios da chuva
Começaram a ensaiar um discurso novo
Que era boa e justa a chuva
Mas que
Pelo menos
Devia ter sido mais serena
E não fazer acampadas!
E a chuva
Conforme veio
Foi-se,
Então clareou o dia
O sol surgiu cheio no firmamento
Mas a chuva não se foi para sempre
A chuva percebeu a sua imensa força
Porque ela emana
De um conjunto gigantesco de pingos
E não apenas de um único jato de água!

 

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